A Copa do Mundo da Alemanha terminou da pior maneira possível: não em campo, mas na marca do pênalti, em morte súbita, com o capitão Joshua Kimmich essencialmente suplicando para que alguém - qualquer um - assumisse a responsabilidade do chute decisivo. Ninguém quis. E Jonathan Tah, zagueiro de 1,98 m com um único gol em 51 jogos pela seleção - de cabeça -, caminhou até o ponto fatídico para tentar um pênalti que nunca deveria ter sido dele. A bola foi longe, muito longe do gol. O Paraguai avançou. A Alemanha foi para casa.
O vídeo da cena dentro do círculo central circula pelas redes sociais e é constrangedor de assistir: Kimmich, olhos arregalados, gesticulando para companheiros de equipe que desviavam o olhar. Leon Goretzka, meia com muito mais vocação ofensiva do que Tah, foi apontado como o vilão por ter recusado a bola. Mas a verdade é menos dramática e mais reveladora: Goretzka tentou apenas cinco pênaltis ao longo da carreira, com duas falhas, e nenhum desde 2018. A Alemanha, a seleção que mais planeja, mais analisa e mais organiza no futebol mundial, simplesmente não tinha um plano para o décimo primeiro chute de uma disputa de pênaltis. Esse vácuo de liderança e preparo dialoga com um cenário maior no futebol europeu - enquanto jogadores como William Saliba redirecionam o foco para a Copa, entenda o foco de Saliba na Copa pela França e como as prioridades individuais moldam o comportamento coletivo das seleções no torneio.
Por que as disputas de pênaltis continuam pegando todo mundo de surpresa
Há uma ilusão generalizada de que os pênaltis são um elemento rotineiro do futebol. Não são. A esmagadora maioria das partidas simplesmente não pode terminar em disputa de cobranças - campeonatos nacionais aceitam o empate, e só jogos eliminatórios de torneios chegam a esse desfecho. No Bayern de Munique, clube que fornece a espinha dorsal da seleção alemã, 47 das 55 partidas disputadas na temporada 2025-26 não tinham sequer a possibilidade de ir para os pênaltis. Das oito restantes, nenhuma foi decidida assim. O Bayern não disputava uma cobrança de pênaltis desde janeiro de 2021.
Na Liga dos Campeões 2025-26, houve apenas um shootout em toda a competição - na final, entre Arsenal e PSG. E o Arsenal também recorreu a um zagueiro sem nenhuma cobrança de pênalti registrada na carreira: Gabriel Magalhães, que errou o quinto chute decisivo. Tah não foi exceção; foi a regra. No jogo entre Holanda e Marrocos, três dos seis cobradores marroquinos tinham, somados, no máximo três tentativas ao longo de suas carreiras. Dois converteram. O ponto central é este: quando uma disputa de pênaltis chega ao quinto ou sexto cobrador, as equipes estão improvisando, porque nunca treinaram para isso de verdade. Em 22 cobranças de shootout registradas até agora nesta Copa, cinco foram para fora - 23% do total, quatro vezes mais do que a taxa de erros em pênaltis dentro do jogo normal, que fica em torno de 4,9%.
Os heróis improváveis do Paraguai e o goleiro que vendia uniforme para pagar as contas
Se a Alemanha viveu seu pesadelo, o Paraguai encontrou seus heróis onde menos se esperava. O goleiro Orlando Gill, que tinha apenas três aparições no futebol profissional até 2024, foi o protagonista nas cobranças. Gill chegou a vender uma camisa que recebera pela seleção de base para ajudar a pagar as contas após o nascimento prematuro de seu filho. Na noite em que sua seleção mais precisou, ele estava lá, defendendo chutes que mandariam rivais para casa. José Canale, o cobrador do pênalti decisivo, era zagueiro sem nenhuma cobrança registrada na carreira e nunca havia sequer iniciado uma partida como titular pelo Paraguai - só jogava porque Omar Alderete, titular da posição, estava lesionado. O chute entrou. O futebol tem dessas.
Vale registrar ainda um detalhe tático que pode ganhar relevância ao longo do torneio: o gol da Alemanha que seria de virada foi anulado porque Gill colidiu com um jogador alemão que estava essencialmente bloqueando seu caminho - uma estratégia de bloqueio no escanteio que os árbitros optaram por punir. O debate sobre esse tipo de tática, apelidada informalmente de "muro de carne", pode crescer nos próximos jogos.
Bono, Marrocos e a revolução silenciosa das cobranças de pênalti
Enquanto isso, o goleiro marroquino Bono parece estar escrevendo seu próprio manual sobre como defender pênaltis. A maioria dos goleiros se lança para um lado antes mesmo de o chutador bater - não há tempo de reação para tanto, então o palpite antecipado é a norma. Bono faz diferente: escolhe um lado, mas permanece de pé, aproveitando os reflexos para se ajustar caso o chute vá para o meio ou mude de direção. Funcionou contra a Holanda. Funcionou na semifinal da Copa Africana de Nações contra a Nigéria, em janeiro. É cedo para declarar que ele descobriu uma fórmula, mas há algo ali que merece atenção.
O Marrocos, aliás, é uma das histórias mais fascinantes desta Copa. Apenas nove dos 26 jogadores do atual elenco participaram da campanha de 2022, quando a seleção chegou às semifinais. Apenas três deles estavam no time titular na última rodada. É essencialmente uma equipe nova, com a segunda menor média de idade de todo o torneio - e já demonstra que veio para jogar de verdade. Já a França, com o talento e a consistência que vem mostrando, segue como a seleção que mais assusta na competição.
Panorama rápido: Brasil, Haaland, México e LeBron
Em outras frentes desta Copa: o Brasil avançou de forma dramática, com Gabriel Martinelli marcando aos 95 minutos - o gol mais tardio da história das oitavas de final do torneio -, depois que o Japão abriu o placar e tentou segurar o resultado. Erling Haaland, por sua vez, marcou o gol da vitória norueguesa num chute que mal tocou bem na bola - uma finalização torta que entrou mansinho no gol. Nem sempre os grandes precisam fazer bonito para decidir. O México, jogando no Azteca, continua aproveitando o misto de altitude e atmosfera para complicar a vida de qualquer adversário. Mais um cartão vermelho por cobrir a boca na comemoração - o debate disciplinar também não para.
Fora dos gramados: LeBron James anunciou que vai deixar o Los Angeles Lakers aos 41 anos, detentor do recorde absoluto de pontos na história da NBA. O destino mais cotado é o Golden State Warriors, ao lado de Steph Curry e Draymond Green - uma reunião de veteranos que geraria tanto entusiasmo quanto ceticismo. As perguntas se multiplicam: ele ainda quer ser a primeira opção de uma equipe? Esperou o contrato do filho Bronny ser garantido antes de partir? O capítulo final de LeBron promete ser tão complicado quanto os anteriores.