ALL ENGLAND CLUB, Londres - Arthur Féry, wild card britânico classificado no ranking 114 do mundo, está na semifinal de Wimbledon. O jovem de 23 anos superou o nono cabeça de chave Flavio Cobolli, finalista do Roland Garros, por 6-4, 7-6(4) e 6-0, numa tarde em que produziu seu tênis mais completo e dominante de todo o torneio. Com o resultado, Féry se tornou o primeiro jogador a alcançar as semifinais de Wimbledon como wild card desde Goran Ivanišević em 2001 - que naquele ano foi além e levantou o troféu.
A trajetória de Féry nesta quinzena é simplesmente difícil de processar. Antes do torneio, ele havia vencido apenas uma partida de Grand Slam em toda a sua carreira e não tinha ranking suficiente para entrar no torneio por mérito próprio. Na semana em que Cobolli disputava a final em Paris, Féry jogava um Challenger da ATP em Birmingham, tendo caído na segunda rodada do qualifying do Roland Garros. O mundo do tênis profissional, por mais que se esforce em encontrar narrativas, não costuma produzir reviravoltas tão absolutas quanto esta. Para quem acompanha o calendário de grandes eventos esportivos ao redor do globo, vale também leia sobre o calendário de esports 2026, que promete reunir mais de 30 torneios em todos os continentes e já movimenta a atenção do público jovem.
Milagres acumulados: de Bergs a Cobolli passando por Dimitrov
Para chegar até aqui, Féry precisou escapar de situações que fariam qualquer torcedor desviar o olhar. Contra Zizou Bergs e depois contra Grigor Dimitrov, o britânico se viu perdendo por dois sets a um e com quebra dupla de serviço no quarto set em ambas as partidas - e em ambas as vezes encontrou um caminho de volta para vencer em cinco sets. Depois de dois atos de escapologia assim, a dúvida legítima era quanto combustível restava no tanque para enfrentar Cobolli, um jogador que havia disputado uma final de Grand Slam apenas um mês antes.
A resposta foi desconcertante: Féry não apenas estava fresco, mas jogou melhor do que em qualquer outro momento do torneio. Cobolli chegou alternando winners de alta velocidade com erros desnecessários, enquanto o britânico se estabelecia rapidamente no ritmo do jogo. No primeiro set, Féry aproveitou uma dupla falta do adversário no 5-4 para converter o primeiro break point da partida e fechar o set. A vantagem de Cobolli no início do segundo set - com quebra para 2-0 - parecia prometer uma virada, mas a resiliência de Féry foi implacável. Ele forçou o italiano a disputar cada ponto adicional, e no tiebreak abriu com um ace, conquistou uma mini-quebra imediata e fechou com uma voleio de backhand no estiramento após um chip-and-charge. No terceiro set, simplesmente não houve mais contestação: 6-0, com Féry encerrando a partida com um ace.
O perfil de um fenômeno improvável
Criado em Londres, filho de pais franceses - sua mãe, Olivia, foi tenista profissional, e seu pai, Loïc, é presidente e ex-dono do Lorient, clube de futebol da França -, Féry frequentou uma escola privada em Wimbledon antes de ingressar na Universidade de Stanford, na Califórnia, onde estudou entre 2020 e 2023. Desde que deixou Stanford, lidou com lesões que retardaram seu desenvolvimento no circuito profissional. Mas em sua primeira quinzena como protagonista em um Grand Slam, parece completamente em casa no court mais célebre do tênis mundial.
Seus técnicos repetem durante toda a semana que ele não se intimida com nada, e que quanto maior o palco, mais à vontade e inspirado ele fica. Na coletiva pós-partida, Féry confirmou essa leitura: disse que os únicos nervos que sentiu na quarta-feira foram porque percebeu que aquele era um jogo que podia ganhar. Já havia batido Cobolli no primeiro round do Australian Open em janeiro e entrou em quadra com essa confiança. "Mesmo durante a partida eu sentia que tinha sempre uma pequena vantagem", disse. Mencionou também Emma Raducanu, sua compatriota que venceu o US Open de 2021 como qualifier, como fonte de inspiração: "Foi impressionante como ela não deixou a ocasião pesar sobre ela. Jogo após jogo, ela continuou jogando bem, batendo os melhores."
Os números sustentam a dominância: Féry venceu 75% dos pontos em situação de ataque, contra 59% de Cobolli. Com 1,75m e um estilo de jogo baseado em antecipar a bola e se manter colado à linha de base, ele foi comparado pelo próprio tenista a Andre Agassi - oito vezes campeão de Grand Slam. Na semana que vem, Féry estará no ranking 36 do mundo, quase em posição de ser cabeça de chave nos maiores torneios do circuito. A ascensão desde o posto 114, seu máximo de carreira até esta quinzena, é simplesmente extraordinária.
Zverev espera na semifinal - e já conhece o adversário
O próximo obstáculo é Alexander Zverev, segundo cabeça de chave e justamente o jogador que derrotou Cobolli na final de Roland Garros. Zverev avançou ao confirmar seu lugar na semifinal ao bater Taylor Fritz em sets diretos, e revelou que já havia assistido à partida de Féry contra Cobolli no Australian Open. "Já fiquei muito impressionado naquela época", disse o alemão. "Ele tem uma técnica muito limpa e golpes de fundo muito precisos. Já achei que ele era um jogador muito bom."
Féry ouviu o elogio e respondeu com a mesma serenidade que o caracteriza neste torneio: "Zverev é mais um degrau. Estou pronto. Não tenho nada a perder. Vou para a quadra fazer o meu jogo, acreditar em mim mesmo e ver até onde isso me leva." O britânico completa 24 anos no domingo. Dependendo do que acontecer na semifinal, pode estar passando esse aniversário no Centre Court, numa final de Wimbledon que ninguém - absolutamente ninguém - previu quando o sorteio foi feito.