Sinner e Djokovic disputam semifinal de Wimbledon com ares de grande final

Sinner e Djokovic disputam semifinal de Wimbledon com ares de grande final

Era quase duas da manhã, horário local, quando Jannik Sinner entrou na sala de imprensa do Australian Open com o rosto fechado e os olhos perdidos no vazio. O italiano acabara de perder para Novak Djokovic em cinco sets, desperdiçando 18 oportunidades de quebra - oito apenas no set decisivo - e carregava nos ombros o peso de uma chance desperdiçada. Seis meses depois, no All England Club, em Londres, os dois voltam a se encontrar numa semifinal de Wimbledon que tem todo o contorno emocional e esportivo de uma grande final.

O que torna este confronto ainda mais fascinante é o contraste entre dois atletas em momentos opostos de suas carreiras, mas igualmente pressionados pela urgência do tempo. Djokovic, 39 anos, sete vezes campeão em Wimbledon, sabe que esta pode ser sua melhor - talvez última - oportunidade real de conquistar um 25.º título de Grand Slam. Desde que venceu o US Open em 2023, Sinner e Carlos Alcaraz ergueram uma barreira quase intransponível nos majors. Com Alcaraz lesionado e fora do torneio, o sérvio vislumbra um caminho que raramente esteve tão aberto. Vale lembrar que em outros esportes também se vivem momentos de pressão institucional e financeira que moldam trajetórias - como quando Roma descumpre acordo financeiro e enfrenta consequências que redefinem seus planos de temporada -, mas no tênis o peso recai diretamente sobre os ombros do atleta, sem amortecedores institucionais. Djokovic tem consciência disso: aos 40 anos que completará antes do próximo Wimbledon, o relógio corre de forma implacável.

Sinner, por sua vez, chega ao confronto como número 1 do mundo e atual campeão do torneio, mas carregando uma série de sinais de alerta. O saque tem sido seu principal aliou nesta quinzena, sustentando atuações irregulares na linha de fundo. Uma derrota nesta sexta-feira o deixaria sem nenhum dos quatro títulos de Grand Slam em disputa - um cenário quase surreal para alguém que lidera o ranking com mais de 4.000 pontos de vantagem, venceu os últimos seis torneios Masters 1000 e o ATP Tour Finals. Nos Slams, porém, Alcaraz acumulou seu sexto e sétimo títulos nesse mesmo período, completando o Grand Slam de carreira. A consistência de Sinner fora dos majors é inigualável; dentro deles, o jejum começa a pesar.

O calor como fator decisivo e os limites físicos de cada um

As previsões meteorológicas adicionam mais uma camada de complexidade ao confronto. Com temperaturas esperadas em torno de 31°C no sudoeste de Londres, o calor intenso pode ser determinante - e o histórico de Sinner nessas condições é preocupante. No Roland Garros em maio, ele desmoronou física e emocionalmente diante do argentino Juan Manuel Cerúndolo em situação de aparente conforto. No próprio Australian Open de janeiro, foi salvo pela regra de calor do torneio enquanto perdia para Eliot Spizzirri, dos Estados Unidos. No Masters de Xangai, em outubro, precisou abandonar a partida contra o holandês Tallon Griekspoor e teve de ser carregado para fora da quadra. O italiano garantiu que ele e sua equipe revisaram os protocolos de preparação física para evitar colapsos semelhantes, mas o histórico recente pede cautela.

Djokovic também não aprecia o calor, mas seu diferencial está em outro lugar: ele prospera em batalhas longas. Na terça-feira, despachou Félix Auger-Aliassime, cabeça de chave número 3 e 14 anos mais novo, em cinco sets e mais de cinco horas de tênis extenuante - um dos jogos mais longos de toda a sua carreira em Wimbledon. O sérvio tem 100% de aproveitamento em partidas que ultrapassam quatro horas e 55 minutos, ao passo que Sinner ainda não venceu nenhuma que tenha passado das três horas e 50 minutos. O retrospecto do italiano em cinco sets, 7 a 12, também é motivo de atenção. Na semana passada, ele interrompeu uma sequência de cinco derrotas consecutivas em sets decisivos ao bater Miomir Kecmanović na primeira rodada.

Djokovic desgastado, Sinner sem bagagem de cinco sets - quem aguenta mais?

Há um contraponto importante à narrativa da resiliência de Djokovic. A maratona de cinco horas contra Auger-Aliassime pode ter cobrado um preço físico significativo. Antes desta semifinal, o sérvio também se beneficiou da retirada por lesão de Lorenzo Musetti nas quartas de final e de uma vitória por W.O. sobre o tcheco Jakub Menšík na rodada anterior - ou seja, jogou muito menos tênis do que seria habitual antes de uma semifinal de Grand Slam. Com o acúmulo físico da quinta-feira pesando nas pernas, sua capacidade de aguentar mais um longo confronto em condições de calor é uma incógnita legítima. Após a vitória sobre Auger-Aliassime, Djokovic brincou que gostaria que seus jogos durassem apenas 90 minutos, como os do outro atleta de 39 anos realizando milagres esportivos na terça, Lionel Messi.

Sinner lembrou em sua entrevista coletiva desta semana que "cada partida tem sua própria história". Um ano atrás, numa semifinal de Wimbledon com circunstâncias muito diferentes, ele atropelou um Djokovic comprometido fisicamente por 6-3, 6-3 e 6-4 em pouco mais de duas horas. Desta vez, o sérvio chega em forma genuína, com o mesmo arsenal de saque potente e agressividade que o fizeram vencer em Melbourne - e com a fome de quem sabe que os capítulos finais de uma carreira extraordinária estão sendo escritos a cada partida. Quem sair vitorioso do Centre Court nesta sexta-feira vai enfrentar na final um adversário estreante - seja o wild card Arthur Féry, número 114 do mundo, ou Alexander Zverev, que jamais havia passado da quarta rodada em Wimbledon antes desta edição. A pressão, portanto, recai inteiramente sobre Sinner e Djokovic, e ambos sabem disso.